terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ainda lembro Caeiro, mesmo sem disco rígido

Sejamos simples e calmos
como os regatos e as árvores
e Deus amar-nos-á
como aos regatos e às árvores
e dar-nos-á verdor na sua Primavera
e um rio aonde ir ter quando acabemos.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Elogio ao Chico

Francisco Ribeiro (15/03/1965-14/09/2010) era, além de todas as coisas que realmente o definiam, também o Chico - meu primo com vários graus de distância ainda assim próximo, ainda que nunca tenha pensado muito nisso até agora, que faleceu.

A distância definitiva da morte torna-nos mais próximos das nossas memórias com aqueles que partiram, porque não é senão assim que viverão doravante, pelo menos do lado de cá. E se ao Francisco Ribeiro não faltaram laudes e elogios e, quem sabe, até um dia venham a fazer dissertações de mestrados e doutoramentos sobre a música que compôs, tocou, cantou e viveu, já para o Chico os muito próximos guardarão na intimidade muito mais, que os outros não conhecem, mas durante menos tempo.

A mim parece-me que também o Chico merece um bocadinho da eternidade da obra e do nome do Francisco e porque, não sendo íntima não corro o risco de o devassar, nem de um dia mais tarde ao reler as boas memórias lembrar também as más porque não as tenho dele, aqui ficam as minhas memórias do primo Chico, para a posteridade blogosférica.

O Chico e eu temos muitos anos de diferença, apesar de pertencermos à mesma geração familiar, pelo que nunca andámos propriamente na mesma fase nem nos mesmos círculos, mas partilhámos desde que me lembro de existir o mesmo Natal. Na nossa família a véspera de Natal era a reunião anual de afectos, luxos e música a que ninguém podia faltar. Cada ano calhava na casa de alguém, que fornecia perú e bacalhau e algumas outras coisas, os outros traziam sobremesas, vinhos, entradas, prendas e vozes, tão afinadas quanto possível.

Quando (quase) todos tinham chegado começavamos a comer, os eternos últimos chegavam a tempo de introduzir uma pausa entre pratos e obrigar os miúdos a esperarem mais um bocado impacientemente, até porque depois de todos acabarem de comer e antes de abrir as prendas ainda faltava cantar. Sempre as mesmas músicas natalícias, a 2 ou 4 vozes, cantadas ao Menino Jesus. O Chico era de um modo geral discreto durante a noite, como seria de esperar numa casa cheia de mulheres exuberantes e com vozes poderosas, habituadas a falar para salas com mais de 30 pessoas, numa família onde os homens não abundavam. Ocasionalmente, ainda assim, a gargalhada sonora do Chico ouvia-se alto e bom som, bem colocada e espontânea, o timbre diferente denunciava-o.

Quando chegavamos às cantorias, o Chico assumia a dianteira - cada vez mais à medida que o tempo e as gerações foram passando e ele próprio foi estudando. Dirigia, organizava, dava indicações e corrigia, amenizava egos e dava abraços, fazia críticas muito directas e demolidoras com um ar sério ou uma gargalhada cruelmente imparável, seguidas de gestos ternos e sorrisos conciliadores, e o resultado era melhor, ele já tantas vezes com aquele ar de "pelo céu vai uma nuvem" e pela sua cabeça também, nuvem essa que já ninguém estranhava.

De vez em quando, escorregava do tema Natal para outras músicas profanas que a família conhecia, sabe-se lá desde quando, e às vezes gostava tanto delas ou de outras ladainhas ritmadas que passaram de geração em geração, que levava esses ritmos e melodias, esse espírito de Natal e de família, com cheirinho a fritos e a coro, para o trabalho. Permeado de Natais, emprestava o contexto das suas musicais gargalhadas à erudição da música que apresentava em palco.

Talvez por isso, enquanto ao longo dos anos fui ouvindo a sua música e a sua voz, as profissionais, sempre me pareceu que havia ali um todo coerente, o Francisco sempre o mesmo, acertando os coros e o contexto exterior aos sons que ouvia, perfeitos, dentro da sua cabeça, e algo de sagrado a infiltrar-se mesmo na música mais profana, rumo ao Menino Jesus. Para mim, só faltam às suas obras as gargalhadas irreverentes do Chico, que ainda agora, quando ouço A Junção do Bem, estou sempre à espera de apanhar entre as faixas...
Recordo também a imagem distante e cosmopolita que fixei dele durante a minha adolescência e os tempos de faculdade, até ser surpreendida com o primo disponível e paciente que quis aparecer, pontualmente, no meu 30º aniversário e estar comigo, conhecer os meus amigos, estar ali ao fim de pouco tempo com natural à vontade entre o meu núcleo duro - paradoxalmente muito presente, apesar daquele ar, que mantinha, de quem vai pelo céu, como uma nuvem, não se vê aqui da terra para onde. Surpreendeu-me várias vezes depois disso com a memória de momentos aos quais parecia não ter dado muita atenção, chamando as pessoas - e as coisas - pelo nome.
Finalmente, guardo a memória de uma das raras pessoas nos tempos que vivemos que, por mais que corresse daqui para ali e andasse embrenhado na sua própria vida nunca deixava de querer saber dos outros e ouvi-los. Por isto, se por mais não fosse, já o Chico seria grande - além de muito alto. E por estar asim habituado a olhar para baixo, talvez olhe para aqui de vez em quando e goste de ver que nos vamos lembrando dele - e que a sua vida e o que dela fica nos interessa.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Requiem a este blog

Finou-se, de morte natural, enquanto dormia - como seria agradável que pudéssemos ir todos assim também, calmamente, discretamente, na altura em que pelo esvaziar de objectivos e conteúdo deixa de fazer sentido existirmos...

Não gosto das existências etéreas de blogues finados na realidade virtual, mas a pedido da Bloguista Silenciosa e porque do que já foi sabe bem às vezes visitar o álbum de fotografias escondido no fundo da gaveta, este ficará a pairar por aqui, a provar que Ela existe, a guardar a imagem de um regresso intencional, penoso e ultrapassado.

Até sempre, Lisboa!

terça-feira, 4 de março de 2008

Religiboa

A religiosidade inerente a professar uma fé parece coisa apropriada à serenidade de um mosteiro bucólico ou de um eremitério, que facilitem e propiciem a procura de Deus. Esta busca encontra obstáculos, vários e cumulativos, no bulício do trânsito, nos gases de escape, nos muitos chefes e colegas, nas montras, nos anúncios, no ruído, enfim, em todas as muitas e diversas solicitações tipicamente urbanas que nos chamam para tudo o que existe de mais longe da introspecção e da conversa com Quem mora dentro.

Nenhum lisboeta se surpreende com as notícias de que as igrejas se esvaziam e a Igreja tradicional tem cada vez menos e mais envelhecidos crentes, pois a maioria dos lisboetas nem sequer se apercebe do desparrame de igrejas de todos os tipos que existem nesta cidade, à porta de muitas das quais passarão todos os dias milhares de pessoas sem sequer reparar nelas, nem perceber que, muitas vezes, se encontram abertas. Surpreendente para um lisboeta é encontrar as fiéis resistentes nas igrejas do interior, fiel aqui sendo palavra duplamente adequada, que para quem não entende a fé dos Homens, aquela fidelidade das mulheres do interior parece visivelmente assemelhar-se à canina.

Eu, lisboeta, crente, hoje me surpreendi, dei-me ao direito de me surpreender, mesmo no meio de Lisboa no auge do seu bulício. Entrei numa igreja à porta da qual passo todos os dias. A porta estava aberta, numa normal hora de almoço. A igreja não estava vazia e lá dentro várias pessoas rezavam, homens e mulheres de diferentes idades, nem um velho, nem uma velha, cada um sozinho, buscando o recolhimento e a paz e a conversa com Alguém que ouve mais e fala menos.

Então afinal é também isto que fazem durante a hora de almoço aqueles lisboetas que não fazem compras, nem ginástica, nem vão ao médico, ou à repartição, ou almoçar com os amigos, ou outra coisa qualquer...

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Hoje apetece-me ter 7 anos

Porque é que às primeiras chuvas há logo lençóis de água nas estradas em Lisboa?
Porque é que às primeiras chuvadas várias estradas se cortam?
Porque é que quando chove mesmo a sério, numa cidade que sempre foi junto ao rio, as inundações sempre nos mesmos locais provocam o caos?
Porque é que não se planeia a cidade, não se mantêm as sarjetas e esgotos, não se criam alternativas para fazer chegar as pessoas ao trabalho, não se descentralizam as pessoas, os seus carros e os seus empregos, para outras zonas do país menos atreitas a todo tipo de catástrofes naturais, das inundações aos sismos passando por eventuais tsunamis subsequentes?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Ser feliz depende de...

... uma série de coisas, dâ-â! Dependerá do espaço que nos rodeia, do afecto que nos segura, dos recursos que temos ou nos faltam, de como olham para nós todas aquelas pessoas anónimas de cujo respeito e misericórdia ainda assim tantas vezes precisamos e, claro, depende de nós.

E porque hoje é um bom dia para a minha felicidade depender de mim, declaro que apesar do cócó de cão nos passeios, de quase ser atropelada nas passadeiras, de ser insultada por condutores e empurrada por transeuntes, de ser invejada por colegas e usada por colegas e chefes, de ter de pagar os piores e mais duros bifes e bitoques do país ao preço mais caro excluindo Allgarve durante o Summer, de ter de respirar o ar mais poluído de Portugal e sentir os meus pulmõezinhos a encolherem-se todos de medo, declaro ainda assim: Lisboa, hoje sou feliz porque quero!

(Uma boa sequência seria: "OK?!, por isso é melhor não te meteres à minha frente..." - mas será que felicidade e agressividade podem rimar?)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Cosmopolita

Acho que se pode dizer que Lisboa é uma cidade cosmopolita quando quem me conduz ao trabalho é de uma raça diferente da minha, quem me serve o almoço é de um continente diferente do meu, o meu jantar nem sequer fala a minha língua, o concerto que vou ver depois da sobremesa é de sons que não nascem nem crescem aqui e quem mais destoa da entourage sou eu, lisboeta de gema.